terça-feira, maio 26, 2015

A canção da bruxa

Eu e minha esposa nos mudamos do interior para São Paulo há cinco anos, e durante todo esse tempo jamais tivemos grande contato com nossos vizinhos. Na verdade, o mais correto seria dizer que não tivemos contato algum.
No decorrer deste período, passamos por três prédios diferentes e talvez por falta de tempo, ou mais sinceramente, de vontade, nunca trocamos mais do que três palavras com as pessoas com quem compartilhávamos nossas paredes, tetos ou pisos. "Olá" era a saudação mais comum, e "Bom dia" ou "Boa noite" eram o máximo de intimidade que tivemos com esses seres sem nome, que viviam tão próximos e, ao mesmo tempo, tão longe.
Mas isso mudou quando nos mudamos para o primeiro andar um velho edifício no centro da cidade. Lá o prédio era menor (apenas cinco andares, com dois apartamentos por andar), muito velho e a maioria dos moradores parecia estar ali há viver ali há tempo quanto a própria estrutura do edifício.
Como bons sobreviventes do século vinte, nossos novos vizinhos ainda demonstravam certo interesse pelos demais moradores. E a princípio, fomos muito bem recebidos. A vizinha do andar até fez um bolo de limão em formato de coração e nos deu de presente como forma de nos dar as boas-vindas em nossa primeira semana pós-mudança.
Outros nos perguntaram interessados quem éramos, de onde vínhamos e nos contavam sem pressa sobre suas próprias vidas, animais de estimação e familiares.
A vida era boa e o apartamento, o melhor onde já havíamos morado. Eu até tinha o apelidado de “castelo” graças a suas principais características serem ele ser espaçoso e velho.
Mas não demorou para que a Dona Realidade, nossa vizinha de baixo, nos recordasse de que nem todos eram anjos, e que todo castelo tem seu fantasma.
Na noite do primeiro sábado, por volta de 23h da noite, acordamos assustados ao ouvir, pela primeira vez, o som de nossa campainha. Levantamos com medo, pois já era tarde e quase nenhum conhecido sabia nosso novo endereço.
Ao olhar pelo olho-mágico, não notamos a presença de ninguém, e, somente após muito tempo e ainda com certo receio, voltamos a dormir.
No dia seguinte, nossa vizinha de andar nos contou que a fiação da campainha era muito antiga e que ela ocasionalmente disparava sozinha. Mas que talvez fosse a argentina solteirona que morava no segundo andar, que quando bebia saía apertando as campainhas dos vizinhos a procura de companhia. Disse que ela era uma pessoa complicada, que era melhor manter distância. E foi exatamente o que fizemos.
Ficamos aliviados e voltamos a viver normalmente nossas vidas, sem grandes preocupações.
Alguns dias depois, durante um sábado a tarde, ouvimos umas batidas na porta. Abrimos e não havia ninguém lá fora, mas durante a noite senti uma movimentação estranha nas cortinas. Certas vezes, parecia que o próprio encanamento fazia uns barulhos sinistros.
Algumas semanas depois, na madrugada de um domingo, acordamos ao ouvir o som uma música tocando em um volume insuportável oriunda do segundo andar.
Desde que nos mudamos para a capital, sempre moramos no centro. O que significa que estamos acostumados com barulhos altos de festas nas proximidades, jovens bêbados gritando pelas ruas e até mesmo o som de prostitutas fazendo algazarra quando acreditam que não são devidamente compensadas por seus serviços. Para que algo nos incomode, o barulho tem que ser extremamente perturbador.
Eram cinco da manhã, e a própria Dona Augusta, a garota mais alternativa e badalada da cidade, já tinha ido dormir.
Entretanto, no andar de cima, a Dona Encrenca arrastava seus móveis de um lado para o outro e tocava repetidamente a mesma música com o volume no alto, parecendo não se importar nem um pouco com aqueles que teriam de levantar cedo no dia seguinte.
Minha mulher Amélia foi a primeira a acordar. Agitada, tentou encontrar sossego em todos os demais cômodos da casa, mas não teve sucesso. O som cobria a sala e o quarto de visitas, tanto quanto a escuridão da noite. E não era só a música que incomodava, parecia que a mulher também estava mudando todos os seus móveis de lugar, e podíamos escutar enquanto ela os arrastava de um lado para o outro.
Acabei acordando também, enquanto ela se trocava para subir reclamar do barulho com a mulher.
Ouvi, ainda de pijamas, seus passos pesados na escada em direção ao piso superior e as batidas graves que deu na porta, mas a estrangeira nem se deu ao trabalho de atender a porta, fazendo com que minha esposa descesse ainda mais irritada de volta para nosso quarto.
Era minha vez. Peguei uma vassoura e comecei a bater no teto para ver se a velha se tocava. Nada.
Peguei uma jaqueta no mancebo e a ira acumulada de uma noite de sono perdido, subi ainda segurando a vassoura na mão e bati com todas minhas forças na porta da mulher.
Apertei mil vezes sua campainha, mas estava quebrada. Gritei, mas não obtive nenhuma resposta (nem mesmo dos demais vizinhos. Será que não havia mais ninguém naquele andar?).
Entretanto, eu estava decidido a não sair dali sem o silêncio que tinha ido buscar. Continuei esmurrando a porta, com minha mulher já gritando do andar de baixo para que eu parasse, pois já estava me comportando como um maluco, e voltasse para casa. Era tarde. Ninguém me deteria agora.
Se socos não eram o suficiente, meus chutes ela ia escutar. Ataquei a entrada do apartamento com todas as minhas forças, até que a porta, que era tão velha quanto o resto do edifício, foi derrubada por um de meus pontapés.
Nada poderia me preparar para o que eu vi lá dentro.
Toda a mobília da sala estava espremida contra a parede. E a argentina se encontrava sentada de pernas cruzadas bem no meio de um grande círculo formado por sangue e o que pareciam ser entranhas de animais (que suspeitei pertencerem ao cachorro da vizinha do sexto andar, desaparecido há poucos dias). Os açougues mais sujos do centro nunca federam tanto. E a coleção de garrafas de bebida vazias ao redor do círculo fariam inveja ao mais exigente dos frequentadores dos bares vizinhos.
O corpo nu e flácido da mulher estava coberto de um líquido escuro que parecia ser sangue seco formando desenhos de runas bizarras. Ela cheirava a álcool como se tivesse tomado um banho com o conteúdo de todas aquelas garrafas e me olhava enfurecida por eu ter a tirado de seu transe, com uma de suas mãos ainda dentro de sua vagina. Acho que ela estava se masturbando.
Durante alguns segundos, a bruxa me observou como uma criança que foi descoberta roubando um pouco da cobertura do bolo de aniversário de seu irmão, e ficou sem reação.
Mas o fator surpresa durou muito pouco.
Segundos depois, a criatura já estava projetando-se na direção de meu pescoço, com uma velocidade tão inumana que eu mal soube se ela tinha pulado ou voado até o local onde eu me encontrava.
Instintivamente, fechei os olhos e apontei o cabo da vassoura para a frente.
A fúria cega da bruxa fez com que ela se atirasse direto na direção de minha precária defesa, e o cabo da vassoura perfurou o olho direito da velha.
Senti minha vassoura ficando pesada, e a mulher começou a se debater, jogando seu corpo de um lado para o outro para se libertar, como um peixe fisgado por uma lança.
Revirei os bolsos de meu casaco em busca de algo que pudesse usar para afastá-la de mim e encontrei a caixa de fósforos que eu tinha usado horas antes para acender o fogão.
Afastei a bruxa para trás, com os ombros, de volta para dentro do apartamento, enquanto afundava ainda mais a vassoura em seu crânio.
Acendi rapidamente um fósforo e o joguei no chão da sala, que continuava encharcado em cachaça, vodka barata, sangue e rum e rapidamente o corpo da mulher se transformou em um amontoado sujo de cinzas.
Roda viva, do Chico Buarque, continuava tocando, a todo volume e no repeat.
Entrei e, com cuidado para não pisar no piso molhado, tirei o aparelho de som da tomada.
Em seguida, chutei o tapete que dizia "Bienvenidos" para dentro; espalhei o que restou das cinzas com a sola de minhas havaianas e recolhi a vassoura, que jazia imóvel e banhada em sangue, jazia caída próxima ao corredor.
Depois saí, tentando sempre não esbarrar em nada, e encostei a porta.
Ao chegar em casa, tomei um banho e voltei para a cama.
- Vai ficar tudo bem agora? - Amélia perguntou.
Ding Dong.
Ding Dong.
Ding Dong.
- A bruxa morreu – respondi.- Agora só falta consertar essa maldita campainha. 

segunda-feira, maio 25, 2015

Visitando o Sr. Green no Hotel Jaraguá & A origem da torta holandesa

Mais um fds em São Paulo, curtindo a casa nova e a vizinhança (bom, talvez essa última nem tanto). Sexta saí jantar com a Manda no Marajá, provar os hamburguers artesanais deles e tomar uma cerveja. 
Aproveitei o sábado pra colocar tudo em dia: a leitura (quase terminando Herdeiro do Império e peguei um livro de contos do Stephen King na biblioteca), os jogos (Yakuza 4, Dishonored, Thief), hqs (Monstro do Pantano, Invisíveis, Miracleman, Alan Moore é só Amoore) e filmes (revendo a Trilogia Mad Max, pq né, o filme novo é foda demais!). Ainda aproveitei um tempinho de manhã, enquanto a Manda saiu pra fazer compras, pra gravar um podcast (ainda a ser editado) sobre a nova coleção da Marvel da Salvat (links em breve :]). Almoçamos uma macarnenada da Manda e ela aprendeu a fazer uma perfeitamente deliciosa torta holandesa! Caralho, que delícia! Mas sabiam que de holandesa, ela só tem o nome? Na verdade o doce nasceu em Campinas (coincidência?) e foi inventada por uma brasileira.
Depois do cochilo habitual da tarde, fomos no teatro (que fica a poucos metros de casa) assistir a peça "Visitando o Sr. Green", uma peça americana que é replicada no mundo todo, na qual dois atores fazem com que duas horas passem voando em uma história bem divertida, engraçada e envolvente sobre um homem e suas visitas forçadas a um idoso judeu que ele quase atropelou (o ator principal é o cara que fazia o pai do Nino no Castelo Rá-tim-bum, a peça é dirigida pelo ator que vivia o Nino, e o teatro fica perto do nosso "castelo").
Saindo de lá, fomos visitar os bares da praça Roosevelt (todos com cartas sensacionais de cerveja), onde tomei uma ótima Paulistânia e a Manda foi de caipirinha.
Domingo de manhã demos uma passada na feira, no mercado e no açougue porque o plano era fazer um churrasquinho. Não rolou por falta de tomada, mas serviu pra Manda aprender mais uma e mandar uma bela picanha com manteiga. A tarde, depois de quase um mês de espera, a fella da Vivo finalmente foi em casa instalar nossa internet (eu já tava quase me acostumando a viver na idade da pedra), então pudemos voltar ao maravilhoso mundo da Netflix! Hora de aventura, filmes, e dar uma chance pra série Hannibal (que até agora está realmente boa)! A noite, não conseguimos dormir porque a vizinha (surda talvez?) do andar de cima resolveu ouvir música de madrugada (postarei um conto baseado nesse rolet em breve), mas savida né, como diria o grande filósofo Augusto "Caratorta" Catarata: "Tem dias que a noite é foda!". =b

segunda-feira, maio 18, 2015

Famiglia em Sampa, Mad Max & Salaminho

Sexta a noite, meus pais vieram visitar a gente em São Paulo, e eu e a Manda fomos com eles conhecer a Pizzaria da Famiglia vizinha, que sempre tivemos vontade de conhecer mas nunca tivemos coragem (R$ 18 pilas por cabeça só de couvert!). A pizza era realmente bem boa, o chopp gelado e as sobremesas deliciosas. A música era boa mas não valia tanto, ainda assim gostamos bastante da companhia e da visita! Saindo de lá, ainda demos um rolet completo pela Rua Avanhandava, uma ruela tão bonita que nem parece pertencer a São Paulo e que tem até uma lojinha de antiguidades que eu nem conhecia.

Passamos o sábado em casa, esperando um montador das Casas Bahia que nunca veio e brigando com a Vivo por telefone (sem internet em casa há 3 semanas já, e a fella tem o monopólio da internet na região). Meu pai nos ajudou com várias coisinhas como colocar trancas, pendurar espelhos e cortinas. Juntando tudo isso aos tapetes que a Manda comprou, o apê já está começando bastante a parecer com uma casa de verdade. Comemos em casa, tomei umas cervejas nice e vimos um dos piores filmes da atualidade (Jupiter´s Ascending), uma aula do que não fazer em uma história.

Domingo dormimos bastante, saí correr no minhocão (relembrando sempre o quanto ele é cheio de vida: tinha teatro numa janela, gente treinando malabarismo no meio, barraquinhas de food truck mais pro final, gente pintando a vista, fotógrafos fotografando, vida acontecendo!), depois fui com a Manda na feira comprar umas frutas. Almoçamos uma macarronice com carne do açougue vizinho (tantos bons vizinhos, e nenhum se veste de mulher pra ganhar a vida, não que tenha alguma coisa errada com isso), e dormimos bastante a tarde. A noite, subimos a Augusta pra assistir Mad Max: Fury Road, um filme tão lindo, tão cheio de ação e ótimo design de personagens, que merece um post só pra ele em breve, que mal assisti e já considero pacas! Na volta, a Manda fritou uns salgados que ganhamos de uma vizinha espanhola e abri mais uma cervejinha nice ( <3 Pão de Açúcar, ainda tenho brejas da promoção).

Na segunda, voltou a ser hora de trabalhar, mas sem querer acabei achando um novo lugar legal pra comer. Voltando da Eletropaulo ("ser adulto é ter contas no seu nome"), vi uma promoção de um lanche de Mortadela e Salaminho com suco por dez pila e acabei conhecendo um boteco totalmente dedicado a essa dupla dos quadrinhos (que inclusive deu origem ao lanche em questão), com várias paredes decoradas com capas deles. Tão perto de mim que me sinto até besta de nunca ter dado uma chance pro lugar antes (e o sanduíche realmente tava gostoso). Nice!

quarta-feira, maio 13, 2015

Pálido ponto Jaú

Final de semana de dia das mães significou voltar pra Jahu duas vezes seguidas nas últimas semanas, o que é sempre bom e algo tão raro ultimamente. Eu e a Manda voltamos com o Edu, comemos umas batatas fritas com cheddar e bacon no posto e tomei uma cerveja e comi um lanche do Rospinho com meus pais quando cheguei.
No sábado, passei a maior parte do dia terminando de ler "A soma de tudo", do Mutarelli, uma história sensacional que pela primeira vez na vida me deixou com vontade de visitar Portugal. Almoçamos no Ítalo, tomamos umas paletas mexicanas (e eu realmente tava perdendo muita coisa me prendendo apenas ao sabor de Paçoca, Ovomaltine e Banana com Nutella também são geniais!) e poitei a tarde toda. A noite, encontramos o Sustinho pra uns chopps e umas batatas no Scooter.
E no domingo, eu e a Manda assistimos um pouco de Hora da Aventura e o primeiro episódio de Cosmos (um documentário seriado, que originalmente foi apresentado pelo Carl Sagan, realmente muito bom), almoçamos um delicioso filet a parmegiana que meus pais prepararam (os bifes eram gigantescos, do tamanho do prato praticamente, e a foto tae pra provar) e tiramos um cochilo.
A tarde deu até pra curtir uma chuvinha (coisa que nem rola mais em São Paulo), e depois mais um pouco de videogame (pod races no PS2) e hqs da Marvel no iPad.:)
Deixo abaixo um miniconto chamado "Pálido Ponto Azul", do Sagan, 5 minutinhos que merecem muito ser ouvidos:

terça-feira, maio 05, 2015

Sobre a vida e o preço da cerveja

Querido diário:
O dia do trabalho, que na verdade é o dia da folga do trabalho, ter caído numa sexta veio bem a calhar. Depois das correrias das mudanças (e antes disso,várias semanas em busca de um novo pedaço), eu e a Manda precisávamos de um tempinho pra relaxar. Voltamos pra Jaú com o Edu, na quinta, e depois de 3h de boa conversa meus pais me aguardavam com um ótimo lanche de vaca do Rospinho (como de praxe) e uma cerveja do Iron Maiden me esperando (uma ótima surpresa!).
Na sexta passei a maior parte do tempo no sofá, assistindo Doctor Who, expandindo o universo de Star Wars na literatura ou dormindo. E tinha até bolo de carne pro almoço (outra inovação!). A noite, saímos com o Justinho pra uns chopps, batidas e brejas no La Rubia. 
Sábado de manhã, eu e a Manda corremos atrás de coisas pra casa (é,não adiantou tanto fugir), almocei com minha família no Zezinho, dormi a tarde (^^) e ressuscitei o PS2 baixando alguns joguinhos de Star Wars (Battlefront 2 e Racer Revenge, um ótimo joguinho de pod races!). A noite, eu e a Manda jantamos com o Sustinho na Dona Branca (que ainda é o lugar que mais demora pra trazer um prato, ainda que ele seja pizza, na cidade) e depois colamos no Retrô pra mais umas cervejas.
Domingo mais um pouco de hqs, livros e videogame. Almoço escondidinho na Cachaçaria (que texto cheio de "inhos", não?) com a família, mercado e lanche nos via... (ah, ja entenderam, né?) e hora de voltar pra SP. 
Considerações sobre o preço da cerveja:
Saí pra 3 bares durante o feriado, em cada um a cerveja era mais cara que outro. E porra, era Brahma. Uma cerveja popular não deveria custar praticamente DEZ REAIS, né? Isso é quase pedir pras pessoas pararem de beber fora de casa. Cinco reais seria um preço justo (com isso você compra uma garrafa de 600ml de Heineken ou Original no mercado), sete reais seria o aceitável. Com dez reais você pode comprar uma cerveja FODA no mercado. Com muito mais sabor, e até mesmo maior teor alcoólico. Algo que me irritou demais na Argentina era o preço da cerveja...pois é...estamos a caminho do mesmo buraco...