quinta-feira, agosto 06, 2026

A Bruxa

Ultimamente, do nada, o Rafa me puxa pela mão com urgência, sussurrando: "A bruxa! A bruxa!". Ele me leva até o quarto para nos escondermos debaixo das cobertas. Normalmente, traz junto o Pete Mau (Mickey Mouse), o Pá (Taz), o pato Dona (ld), a entidade "Seu Lobato" (um sítio de brinquedo que ele recheou de pequenos bonecos e carrega por aí como se fosse uma coisa só), algum dinossauro e, talvez, alguns carrinhos. Às vezes, até a Luna. E ali ficamos, nos escondendo da bruxa, dando risadas e brincando com as sombras, com ele aninhado no meu peito.

"Esconde! Esconde!", ele diz, se eu tento ensaiar uma saída.

Coincidentemente, a bruxa sempre aparece quando tenho alguma reunião, estou distraído no celular ou acabei de abrir um gibi para ler. A bruxa é a forma do Rafa dizer que precisa de mim exatamente naquele momento. E, bom... é uma bruxa, não é? Quem sou eu para negar a urgência disso e não sair correndo com ele para debaixo dos cobertores?

Em Watchmen, um dos meus quadrinhos favoritos, Alan Moore fez o herói Ozymandias criar um monstro alienígena falso para unir todas as nações da Terra contra um inimigo comum. Com apenas dois anos e meio, meu filho teve exatamente a mesma ideia — mas com o nobre intuito de nos unir.

A bruxa é o remédio que ele inventou para curar qualquer distração minha. O nosso botão de emergência. Tem como não amar esse garoto?

O mais bonito disso tudo é que, no saldo final, ele realmente conseguiu me deixar com medo da bruxa. Medo de um dia ela não aparecer mais. O medo do dia em que ele não fará mais questão da minha companhia o tempo todo, do dia em que não precisará mais me ter por perto.

Que a bruxa então continue nos assombrando por muito, muito tempo. E que esse dia demore a chegar.